Dizem que é um tempo dos diabos, onde chove quando deve fazer chuva, e solea quando deve chover.
Dizem que o tempo está louco, que o mundo está podre, que somos cada vez mais; dizem até as más línguas que o inferno está próximo...
Quando eu tinha uns oito anos, um padre me falou num sermão acerca do Apocalipse...
nunca soube muito bem afinal o que raio é o Apocalipse, mas deduzi que Copolla o tivesse retratado genuinamente, afinal o Apocalipse Now é tudo menos a descida dos céus ao inferno, pois no inferno vivemos diariamente.
Sobejam as vozes ao delírio que o mundo está em crise vasta, mas os pobres estão sempre em crise, aliás eles nem sabem que ela existe, pois que se levantam a cada dia para descobrirem um pouco de pão para manjarem e não têm tempo a perder com esses "riquísmos"...
Mas falamos do tempo... os pobres não sabem nada do tempo, não lhes interessa. Estão demasiado ocupados a procurarem sobreviver.
Somos muitos sim: mas poucos em crise, pois os outros todos vivem nela permanentemente, para que alguns de nós possamos ter os luxos que não nos são devidos, e envergonhadamente, botamos as culpas ao tempo e a Deus, e a todos os paganismos que aprouverem.
Já morreu o padre do sermão do Apocalipse, já passei o ano dois mil!!
Ainda não vi o Diabo, nem vi a terra desaparecer, mas sinto que a cada dia que passa, é preciso sobreviver.
Vou continuar a desculpar-me no tempo, até que surja algo melhor...
Vou continuar a desculpar-me da chuva.
Paulo Martins
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