Entre nós o barulho do silencio é rei, tudo o que somos é silencio, tudo o que pensamos, falamos ou não dizemos: é silencio.
Eu sou silencio, tu és silencio.
Silencio...
Já não sei estar ao teu lado, senão calado.
Tenho raiva, até de dizer seja lá o que for.
A vida deixou de ser uma festa; passou a ser estática, rotineira, sempre o mesmo do mesmo, dia após dia.
Nada muda senão os dias e os anos, mas, até esses são sempre iguais; quarta hoje, quarta para a semana, sempre quarta.
Os anos acabaram por nos tornar íntimos demais para falarmos de cumplicidade, somos irmãos, mais que tudo o resto; tudo é cíclico, tudo é o mesmo gesto, com o mesmo peso e o mesmo toque, não há nada de novo nem de velho.
Aborrece-me este estado vegetativo de esperar que o tempo passe, aborrece-me este estado de coisas onde nem as coisas sobrevivem. Aborrece-me estar casado com um império onde nada de descoberto acontece.
Sinto-me uma múmia que espera um arqueólogo para me desenterrar, ou alguém apaixonado que me venha socorrer deste tédio mundano, apetece-me alugar o exótico,em que as obrigações nos privam de viver ou em que não hajam obrigações sequer... porque temos que criar, partilhar e educar os filhos, ou terminar o empréstimo da casa?
Porque temos que ser o exemplo ou exemplos da sociedade, se tudo o que somos é nada?
Sinto-me éter, sinto-me água, sinto-me sem sentir, estou por estar, por obrigar... tédio: é a palavra exacta!
Aborrece-me este dever obrigatório de compensar a queda do petróleo e a subida dos juros com mais duas horas extras por dia de trabalho para poder compensar as perdas.
Aborrece-me a mesma posição de amor, vezes sem conta, no mesmo sitio e no mesmo lugar, à mesma hora: rápido senão chegam os miúdos!!!
As vezes tenho medo que chegue a hora, pois fazer aquilo que não queremos é martirizar a alma que não deseja estar...
Porque seguimos estando onde não queremos?
Ora!
Para onde ir?
Vou pensar nisto!
Paulo
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