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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Fartices...

Entre nós o barulho do silencio é rei, tudo o que somos é silencio, tudo o que pensamos, falamos ou não dizemos: é silencio.
Eu sou silencio, tu és silencio.
Silencio...

Já não sei estar ao teu lado, senão calado. 
Tenho raiva, até de dizer seja lá o que for.
A vida deixou de ser uma festa; passou a ser estática, rotineira, sempre o mesmo do mesmo, dia após dia.

Nada muda senão os dias e os anos, mas, até esses são sempre iguais; quarta hoje, quarta para a semana, sempre quarta.

Os anos acabaram por nos tornar íntimos demais para falarmos de cumplicidade, somos irmãos, mais que tudo o resto; tudo é cíclico, tudo é o mesmo gesto, com o mesmo peso e o mesmo toque, não há nada de novo nem de velho.
Aborrece-me este estado vegetativo de esperar que o tempo passe, aborrece-me este estado de coisas onde nem as coisas sobrevivem. Aborrece-me estar casado com um império onde nada de descoberto acontece.

Sinto-me uma múmia que espera um arqueólogo para me desenterrar, ou alguém apaixonado que me venha socorrer deste tédio mundano, apetece-me alugar o exótico,em que as obrigações nos privam de viver ou em que não hajam obrigações sequer... porque temos que criar, partilhar e educar os filhos, ou terminar o empréstimo da casa? 
Porque temos que ser o exemplo ou exemplos da sociedade, se tudo o que somos é nada?
Sinto-me éter, sinto-me água, sinto-me sem sentir, estou por estar, por obrigar... tédio: é a palavra exacta!

Aborrece-me este dever obrigatório de compensar a queda do petróleo e a subida dos juros com mais duas horas extras por dia de trabalho para poder compensar as perdas.
Aborrece-me a mesma posição de amor, vezes sem conta, no mesmo sitio e no mesmo lugar, à mesma hora: rápido senão chegam os miúdos!!!
As vezes tenho medo que chegue a hora, pois fazer aquilo que não queremos é martirizar a alma que não deseja estar...
Porque seguimos estando onde não queremos?

Ora!
Para onde ir?

Vou pensar nisto!

Paulo

quinta-feira, 14 de maio de 2009

... Sonhando ...

És a flor que desabrocha no cheiro da primavera. És a mulher que se acomete neste e em tantos sonhos, imensos...

Acordo no sobressalto de uma estalada... Que bom!
Sinto o tesão revertido, da infelicidade de não te ter por perto.

Fodasss...

Foi apenas um sonho!

Paulo Martins

Vou ser puta...

... Para onde? 

Diz-me a mulher engalfinhada, ainda com aquela voz rouca de quem acabou de acordar e saiu de casa à pressa. 

-Para onde?

Bem: tenho uns quantos trocos no bolso que me podem levar até Bora Bora, mas por enquanto olho aos que acabaram de despertar, e vejo que não os conheço de parte alguma, vivi tanto tempo preso nos meus pensamentos, que me esqueci de que, esta cidade era apenas um ponto num mapa de vinte e cinco mil habitantes, tão pouco para o meu contentamento.
Mais uma vez insistiu, com aquela voz irritante, ou eu é que estava irritado.

É engraçado como se deseja a liberdade e depois de se a ter não se sabe muito bem o que se fazer com ela!
Ai vemos, quanto tempo perdemos nas nossas miseras vidas a tentar fazer o papel de outrem, pensando que seriamos melhores se nesse papel fizessemos tudo perfeito, tudo ao agrado, tudo bonito. 
Mas, quando acontece que se esgotam os tempos os amores, e se passa para o outro lado da vida: nota-se que somos absurdamente patéticos dentro do nosso escafandro de ardis. Nota-se que a vida passou simplesmente pelo amor da habituação de termos algo como salvação, diáriamente nos dizendo o que e o que não deveriamos fazer.

Assim ao espelho de outros casais que conheço, miro-me envergonhando, como ao fim de tantos anos a única coisa que sobra, é a distancia patética e indecorosa que existe entre as parelhas que outrora foram amantes, na comunhão de: "até que a morte os separe"!!!
Levei demasiado tempo a ser-me verdadeiro, e agora que posso deixar este palco, já outro filme me chega as mãos. 
Não sei lidar com isto!

Bem de qualquer maneira tenho que me livrar disto; tenho que me aventar numa excursão qualquer. 
Estava a pensar ir rezar para Compostela, mas depois surgiu a ideia de ir até Lurdes, então porque não começar por Fátima e passar por todos esses santuários que dizem, fazer bem a alma?!
Das poucas vezes que visitei esses lugares senti-me demasiado estranho, acho que não tinha a alma aberta ao sofrimento da fé.
Mas agora a sensação que tenho é que preciso de me juntar aos peregrinos, para que olhem em mim outro sofredor.
Mas que merda tão desmarcada!
Quase que prefiro ser a gaja que está encostada ao vitral da pastelaria, de mini saia e colants, isto em pleno Janeiro invernal com temperaturas de bater o dente e ela impavida como se estivesse um verão de rachar,  espera o proxeneta que virá colectar o guito da noitada, e assim se embebedar as custas da miúda, que deu a cona até alvorada para ganhar dinheiro para o malandro. 

Que coisa mais sórdida! Estes tipos deviam ser condenados como insolentes e gatunos da alma humana, odeio quando tratam as mulheres abaixo de nada...
Mas, isso são outras divagações: tenho que saber para onde quero ir.

Quase que desisto na hora e enfio o orgulho e volto atrás para aquilo que chamo de vida. Ao menos tenho certeza que sei lidar com ela, pois conheço-a de trás para frente, e apesar de ser aborrecida, monótona e enfastiante, sempre posso morrer e definhar , num lugar que não me deixa viver à chuva.

Para Compostela!

Como quem se sentiu aliviado, lá a fulana tirou o bilhete a custo, e com um sorriso amarelo roufenhou: 
-56 euros!
Toma lá cabra mal disposta...
Pensei...
-Bom dia e obrigado. 
Disse eu.

Dei meia volta entrei no Autocarro, e fiz adeus a miúda...
Acho que vou ser puta em Compostela, ao menos saberei o que ser.

Paulo Martins

Gosto da chuva

Gosto da chuva!
Gosto como cai; gosto como se ausenta; gosto como se lamenta.
Gosto do céu cor de chumbo, das colinas regadas e do vento rugidor.
Gosto de estar sentado, no regaço das escadas avistando os cúmulos-nimbo se aproximarem. 
Ora devagar; ora possantes.

Gosto da chuva forte como tambores no soalho batendo, gosto das gotas grossas no rosto tocando, gosto do frio e dos arrepios, dos trovões ribombando. 
Gosto de estar sozinho no meio do temporal
Gosto dos teus olhos tristes, de sentir a perda de quem parte. São tristes os sinos que tocam amiúde e me arrepiam o penar da alma, tenho saudades de ti meu pai...
Onde distas, que em falta não te tenho no meu presente e quisera que tudo se tornasse ausente? 
Porque é triste o olhar da mulher que chora?!

Gosto da pingas que me lavam a tristeza, mas não gosto dos pingos que te escorrem pela face...
Gosto do barulho do silencio que nos envolve, mas não gosto do ruído do teu choro.
De repente, no repicar frenético do bronze, soa um pensamento fúnubre de tragédia. De repente tenho pena e dó, de quem sofre a perda da perda, da ausência de um ente querido.
Tenho a solicitude dos navegantes que adoram portos abrigados, e tenho vontade de te abrigar entre os meus braços num consolo sem sentido, sem ruídos, sem destino.

As gaivotas já se deram conta que hoje irá ser um velório de temporal, pois que tocam os sinos da capela em nome do que lá vai.
Que dia para se enterrar alguém. Ainda ao menos se houvesse sol. Mas apesar da terra estar mais solta e fofa, também subsiste o perigo do indigente defunto, se sentir a modos que ensopado.
Já nem os finados têm uma casa digna para descansarem. Qualquer (e) mesmo um ossário rústico de uma qualquer escola de medicina, que serve a pretexto de estudo anatómico, tem de certeza ar condicionado e desumidificador, para manter as ossadas secas... 
O pobre do enterrado, vai mesmo as molhas para o fundo da última morada.

Ao menos que não desabem as terras, já que andam mal os aterros, e com o tempo assim tão bera não se pode fiar. 

Como andam os tempos de hoje.

Mas, mesmo assim gosto da chuva que já me escorre pelas canelas.
Gosto tanto que me sinto entorpecido, friorento e bafiento.
Não é como as chuvas tropicais; não; essas eram outras chuvas; chuvas de calor, de brincadeira, chuvas de meninice.
Tenho saudades de Angola; das chuvas com cheiro de terra vermelha... lá os mortos não tinham direito a cova una, era mais do tipo (vala comum), nem sirenes pelo caminho, nem sinos!

Estranho como escrevo coisas tão negrosas, e invento palavras de grosa, mesmo que ninguém me entenda: eu gosto desta chuva!!!
Tocam os sinos da igreja!!!

Paulo Martins

terça-feira, 12 de maio de 2009

Violação...

Olho-te com a avidez dos lobos esfaimados, que uivam solenementelas alcateias possessos da lua, com vontade de comer o astro brilhante e iluminado no firmamento.

Dizer-te boa, não tem palavrão, nem é calão, dizer-te tesão é um de menos, pois sinto-me fluir imbuído no teu sorriso, desamparado no calçadão, sobre o ardente poente, que copula no Oeste sideral e é mesmo Oeste.

Devaneios pela penumbra das hordas calamitosas, do meu pensamento, onde a leviandade roça o desespero do my self, tenho o tesão dos homens esfomeados, das conchas devoradas ao pequeno-almoço, coisas estranhas que a libido inventa, quando o único senão: é a vontade de te comer o coiro...

Ainda te dou tempo, para me mostrares os dentes lívidos, brancos como a pasta de papel, brancos como  a neve pirenaica que cai sem cessar na minha névoa enleada, de te apascentar.
E vai uma Ostra ( dizem ser afrodisíaco), e vai outra...
Não te dou tempo de terminares o pitéu, que dizem ser um bom prima para o sexo, e quando mal penso no que li acerca do poder das ostras, já as minhas mãos te tocam os seios ardentemente, possuidoramente, bravamente, demementemente, diariamente.

Estremeço num solavanco, do tipo que adormece e acorda de repente, do tipo que sonha e ainda nem a dormir está mas que se sobressalta como se nada tivesse acontecido, ou que ainda fosse acontecer. Do tipo que acorda num silvado veloz com o sabor margoso do fel, que as mulheres sabem ter, quando se trata de maltratar: -Zás!

Ah! Pausa, que soa uma estalada; pausa que sentido estou atordoado. Será real? Será sonhado?-Zás!

Que seja, que seja aquilo que for, dói, mas nem assim me senti temido, pois a seguir aos berros e a dor eu te violava os sentidos, onde possuída na minha força brutal, tu eras um trapo, e eu sou um homem de coragem: 
Afinal tu és o meu prémio.

"Violou e atacou em plena via pública"

Assim surge enunciado, no papel de jornal...
Ainda bem que foi só mentira do pensamento, mas da maneira como elas se vestem hoje em dia: só dá mesmo vontade de ser um Lobo!

Paulo Martins

Mau tempo

Dizem que é um tempo dos diabos, onde chove quando deve fazer chuva, e solea quando deve chover.

Dizem que o tempo está louco, que o mundo está podre, que somos cada vez mais; dizem até as más línguas que o inferno está próximo...
  
Quando eu tinha uns oito anos, um padre me falou num sermão acerca do Apocalipse...
nunca soube muito bem afinal o que raio é o Apocalipse, mas deduzi que Copolla o tivesse retratado genuinamente, afinal o Apocalipse Now é tudo menos a descida dos céus ao inferno, pois no inferno vivemos diariamente.
  
Sobejam as vozes ao delírio que o mundo está em crise vasta, mas os pobres estão sempre em crise, aliás eles nem sabem que ela existe, pois que se levantam a cada dia para descobrirem um pouco de pão para manjarem e não têm tempo a perder com esses "riquísmos"...
Mas falamos do tempo... os pobres não sabem nada do tempo, não lhes interessa. Estão demasiado ocupados a procurarem sobreviver.
  
Somos muitos sim: mas poucos em crise, pois os outros todos vivem nela permanentemente, para que alguns de nós possamos ter os luxos que não nos são devidos, e envergonhadamente, botamos as culpas ao tempo e a Deus, e a todos os paganismos que aprouverem.
  
Já morreu o padre do sermão do Apocalipse, já passei o ano dois mil!!
Ainda não vi o Diabo, nem vi a terra desaparecer, mas sinto que a cada dia que passa, é preciso sobreviver.
Vou continuar a desculpar-me no tempo, até que surja algo melhor...
Vou continuar a desculpar-me da chuva.

Paulo Martins

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Os loucos amam

Na socapa da noite alta, onde já todos ressonam, abeirei-me da tua casa, subi as tuas escadas, entrei plá tua porta...
Beijei-te, abracei-te... 
Sussurrei-te poesia ao som do ressonar no abraço da solicitude amena da noite encadeada, aspirei o teu avatar como um filme de amor cadente; onde rimar-te não faz sentido porque tu és tudo em poesia um erro belo e encantador. Abracei-te com calor, com desejo, com vontade; abracei-te de todo.
A tua pele sumaúma, macios campos de algodão, a tua pele pitanga, imensos campos da Provença.
Os teus abraços meigos, ténues, calmos, suaves... fonte gasosa de Hélio; mais leve que a leveza do ar, mais leve que balão no ar, mais leve que o leve de tão doce e meigo, gelado derretido ao sol, no espanto da boca da tua voz calmíssima me dizendo:
"Isto é loucura!!!"
Sim loucura....
... É loucura!!!í

... Só os loucos podem sentir o amor
... Só loucos somos amando
... Só o amor é louco quando se ama

Paulo Martins