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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Vou ser puta...

... Para onde? 

Diz-me a mulher engalfinhada, ainda com aquela voz rouca de quem acabou de acordar e saiu de casa à pressa. 

-Para onde?

Bem: tenho uns quantos trocos no bolso que me podem levar até Bora Bora, mas por enquanto olho aos que acabaram de despertar, e vejo que não os conheço de parte alguma, vivi tanto tempo preso nos meus pensamentos, que me esqueci de que, esta cidade era apenas um ponto num mapa de vinte e cinco mil habitantes, tão pouco para o meu contentamento.
Mais uma vez insistiu, com aquela voz irritante, ou eu é que estava irritado.

É engraçado como se deseja a liberdade e depois de se a ter não se sabe muito bem o que se fazer com ela!
Ai vemos, quanto tempo perdemos nas nossas miseras vidas a tentar fazer o papel de outrem, pensando que seriamos melhores se nesse papel fizessemos tudo perfeito, tudo ao agrado, tudo bonito. 
Mas, quando acontece que se esgotam os tempos os amores, e se passa para o outro lado da vida: nota-se que somos absurdamente patéticos dentro do nosso escafandro de ardis. Nota-se que a vida passou simplesmente pelo amor da habituação de termos algo como salvação, diáriamente nos dizendo o que e o que não deveriamos fazer.

Assim ao espelho de outros casais que conheço, miro-me envergonhando, como ao fim de tantos anos a única coisa que sobra, é a distancia patética e indecorosa que existe entre as parelhas que outrora foram amantes, na comunhão de: "até que a morte os separe"!!!
Levei demasiado tempo a ser-me verdadeiro, e agora que posso deixar este palco, já outro filme me chega as mãos. 
Não sei lidar com isto!

Bem de qualquer maneira tenho que me livrar disto; tenho que me aventar numa excursão qualquer. 
Estava a pensar ir rezar para Compostela, mas depois surgiu a ideia de ir até Lurdes, então porque não começar por Fátima e passar por todos esses santuários que dizem, fazer bem a alma?!
Das poucas vezes que visitei esses lugares senti-me demasiado estranho, acho que não tinha a alma aberta ao sofrimento da fé.
Mas agora a sensação que tenho é que preciso de me juntar aos peregrinos, para que olhem em mim outro sofredor.
Mas que merda tão desmarcada!
Quase que prefiro ser a gaja que está encostada ao vitral da pastelaria, de mini saia e colants, isto em pleno Janeiro invernal com temperaturas de bater o dente e ela impavida como se estivesse um verão de rachar,  espera o proxeneta que virá colectar o guito da noitada, e assim se embebedar as custas da miúda, que deu a cona até alvorada para ganhar dinheiro para o malandro. 

Que coisa mais sórdida! Estes tipos deviam ser condenados como insolentes e gatunos da alma humana, odeio quando tratam as mulheres abaixo de nada...
Mas, isso são outras divagações: tenho que saber para onde quero ir.

Quase que desisto na hora e enfio o orgulho e volto atrás para aquilo que chamo de vida. Ao menos tenho certeza que sei lidar com ela, pois conheço-a de trás para frente, e apesar de ser aborrecida, monótona e enfastiante, sempre posso morrer e definhar , num lugar que não me deixa viver à chuva.

Para Compostela!

Como quem se sentiu aliviado, lá a fulana tirou o bilhete a custo, e com um sorriso amarelo roufenhou: 
-56 euros!
Toma lá cabra mal disposta...
Pensei...
-Bom dia e obrigado. 
Disse eu.

Dei meia volta entrei no Autocarro, e fiz adeus a miúda...
Acho que vou ser puta em Compostela, ao menos saberei o que ser.

Paulo Martins

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